1ª Parte do Grande Expediente 24/05/2016 Discurso 41ª Sessão

 Houve uma época, não muito distante dos nossos tempos, em que as escolas, as igrejas e até os cemitérios eram respeitados pela sociedade e, pasmem, pelos delinquentes. Em filmes, popularmente chamados de bang-bang, quando havia as incursões dos bandidos nos vilarejos, as pessoas de bem se escondiam dentro das igrejas, das escolas, e essas pessoas eram preservadas, porque nenhum bandido, por mais cruel que ele fosse, invadia esses espaços. Eram, portanto, espaços sagrados, mesmo na ótica de quem era malfeitor.
Hoje, a gente tem que se perguntar: por que os bandidos não respeitam mais as escolas e esses espaços, como igrejas e cemitérios? O que mudou? Os bandidos mudaram? Provavelmente sim, mas, na nossa ótica, o que mais mudou foi a sociedade. As pessoas de bem passaram a não ter mais respeito por essas instituições, escolas, igrejas e cemitérios. Então, você não pode esperar esse comportamento de alguém que não tem ética, se as pessoas que deveriam preservar essas instituições são as primeiras a agredi-las.
Trabalhei em escola, trabalhei como profissional, portanto, durante 44 anos. Tenho 69 anos de vida, entrei em escola com seis anos de idade. E saí quando terminei o meu último curso de direito, aos 60 e poucos, foram quase 60 anos vivendo dentro de escola. Escola é lugar para ser respeitado, quem tem que fazer qualquer movimento dentro de escola é a comunidade escolar. Ela não pode servir para palco, de tal maneira que acabe perdendo a sua essência.
Hoje, por volta do meio-dia, fui visitar o CIEP Carlos Drummond de Andrade, que é matéria do jornal O Dia de hoje. Vou ler para os senhores. É de hoje, 24 de maio de 2016.
(LENDO)
“CIEP é invadido por vândalos que ameaçam os estudantes. No fim de semana, foram roubados computadores, projetores e até estoque de comida.
Os alunos do CIEP municipal Carlos Drummond de Andrade, na Praça Seca, Jacarepaguá, estão sendo praticamente expulsos da unidade, devido aos ataques frequentes de vândalos e bandidos. No fim de semana passado, o CIEP foi invadido e totalmente depredado. Pais de alunos já começaram a transferir os filhos de lá, por temerem por mais ataques violentos à unidade, que não conta com vigias.
Não é só nos fins de semana, não. Eles, os invasores, entram na escola durante a semana e exigem até comer no refeitório junto com os alunos. E se a escola não der comida, eles ameaçam a todos.”
(INTERROMPENDO A LEITURA)
Esta declaração eu colhi agora, hoje, às 12h10, porque eu moro próximo à escola. Eu moro na Travessa Pinto Teles, vizinha dessa escola. Aliás, talvez seja a unidade escolar municipal mais próxima
da minha residência.Esse CIEP, eu vi nascer.
(LENDO)
“De acordo com as pessoas que registraram a ocorrência na delegacia, foram roubados cinco
laptops, três projetores datashow, painéis para projeção e estoque de alimentos para alunos e professores.
Além disso, janelas foram arrancadas, vidros quebrados e paredes pichadas.”
(INTERROMPENDO A LEITURA)
Tudo eu constatei hoje por volta, como eu disse, do meio-dia.
(LENDO)
“Com medo de represálias, funcionários da escola evitam falar e os poucos que comentam pedem anonimato. ‘Não temos porteiro, não temos vigia. Estamos jogados à própria sorte!’ – denuncia um funcionário.”
(INTERROMPENDO A LEITURA)
Escutem, por favor! Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, escutem!
(LENDO)
“O CIEP fica nos fundos da 28ª Delegacia de Polícia e é vizinho à comunidade do Morro do Campinho, que seria dominada por milicianos, segundo os policiais.”
(INTERROMPENDO A LEITURA)
Eu vou repetir este trecho, porque ele é macabro: “O CIEP fica nos fundos da 28ª Delegacia de Polícia.”
O que se faz?
(LENDO)
“De acordo com funcionários da escola, cerca de 500 alunos ficaram sem aulas ontem. Hoje, pela manhã, a direção da escola avaliará se há condições de retornarem às aulas na unidade.”
(INTERROMPENDO A LEITURA)
Eu estive lá por volta do meio-dia, repito, e não vi sinais de alunos, poucos funcionários. A diretora estava lá, mas tive que preservá-la, porque ela não quis conversar e a gente já sabe. Eu fui diretor de escola por quase 30 anos. Eu era rebelde, chato. Mas se tivesse que me perguntar, que me perguntasse e eu diria – e digo – qual é o problema? Chegava a imprensa: O Dia, A Noite, A Tarde, A Manhã. Qual é o problema? “Aconteceu isso, isso e isso.”
Mas a gente sabe que a história não é bem assim. Há pessoas que, infelizmente, com todo direito, têm lá um DAS e não querem perder. A verdade fica escamoteada. Eu sei, porque eu visito hospitais, escolas e abrigos. E para você tirar notícia é complicado. Vereador Paulo Pinheiro sabe disso, pois andou visitando algumas unidades comigo e sabe dos problemas. É difícil colher informações, mas a gente entende. O que a gente não entende é que a sociedade, cada vez mais, está deixando de lado essas instituições, como escolas, igrejas – mas vamos pontuar a escola – servindo, às vezes, ao sabor de grupos políticos inescrupulosos, manipulando, às vezes, pessoas e esquecendo que se você desmoraliza a sua casa, outros podem desmoralizá-la. Se eu permito que minha casa seja invadida por quem não tem nada a ver com a minha casa, para fazer movimento, a minha casa passa a ser casa de ninguém, ou, como se dizia na linguagem antiga, “casa da mãe Joana”. E as escolas viraram “casa da mãe Joana”. Por isso, os bandidos estão fazendo isso.
É preciso que a sociedade, como um todo… Não estou aqui imputando apenas, evidentemente, aos órgãos, como Secretaria de Educação, Prefeitura, porque não é uma coisa pontual. Se fosse, eu diria: “Senhora Secretária”, mas não é. A questão não será resolvida pela senhora Secretária de Educação, com certeza. Não estou aqui para poupar, mas é uma realidade. Não será resolvida pelo Prefeito apenas. Temos que ser maduros e dizer as coisas como elas são. A questão é de um grande pacto – de todos nós – em defesa da escola, senão o professor não vai poder mais dar aula, como está aqui: “Os alunos não podem mais ter aulas”. Algo tem que ser feito.
Apenas para registrar um outro fato, Senhor Presidente, do noticiário de hoje, do Portal G1. “Garoto estava indo
comprar lanche para a mãe, de bicicleta e então sofreu uma agressão, segundo a reportagem.
(LENDO)
“Um adolescente de 14 anos, que teve a clavícula quebrada, acusa um guarda municipal de tê-lo agredido na Central do Brasil, no Centro do Rio, na última sexta-feira. Ao Bom Dia Rio, a família do garoto disse que o guarda não teve nenhum motivo, nenhuma razão aparente para ter chutado o menino.
Gabriel Cardoso Esteves estava ao lado da mãe, que é vendedora ambulante, quando saiu de bicicleta para comprar um sanduíche para ela. Na altura da Central do Brasil ele se deparou com uma Van da Guarda Municipal manobrando. Segundo ele, um dos guardas desceu e partiu para cima dele dando chutes e dizendo que ele estava preso. Uma vizinha da família que passava na hora viu tudo e correu para chamar a mãe do menino.”
(INTERROMPENDO A LEITURA)
Se essa reportagem é verdade – e eu tenho que acreditar que sim, porque diz aqui “portal G1”, “Bom Dia Rio” –, isso é então mais uma daquelas coisas de que eu falei no início. Se nós não estamos respeitando as escolas, as igrejas, os cemitérios e as nossas crianças e adolescentes, quem respeitará?
Muito obrigado, Senhor Presidente.